Thursday, December 01, 2005

"todasascoisasmofadas" (Megalópole + Euclidifobismo)




Casas y dibujo de Alba - 2003 de Javier Saavedra

Megalópole


Eu faço poeminhas machucados, eu tento manchar sua índole até que você se admita fraco, fumante e, por uns instantes, perdedor.
Todas as crônicas que eu garimpei nas memórias altivas e jurássicas das páginas de Web,eu lia você.

Cada centímetro de palavra escrita, cada linha mal posta tinha que te contar um segredo que eu, há tempos, sucumbo á carnes frias.

Você lia e arquivava as páginas com a temperatura do dia lá fora, cinza, que varria São Paulo.

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Euclidifobismo

Eu que xingo sua mãe amada,
sua pátria toda
Sua parte baixa
Eu que risco seu arroz queimado
seu cd do Otto
seu anti-horário

Eu que perco seu etinerário,
sem mandar as flores e o cheque das crianças
Eu que rôo seu tecido branco,
a tinta do seu santo e seu esmalte de unha
Que eu brinco o dia da serpente, eu que escondo os dentes por indiferença.

E há que a crença no bem da salvação,
chegue no sertão
do seu amor falido
No seu agreste seco,
mundo cão, da inovação high tech do arelha do seu brinco.

Eu finjo

E há que a crença no escorpião
do seu afro-descendente,
a lua no sertão, e as estrelas cadentes
no exotérico das letras que eu rolei no colchão
e os dados..ao chão, e os dedos!

Medo vc ser tão
Medo de vc ser
Medo de tão, então
Medo de vc

Medo de vc sertão...árido!

2003

"Confraria dos arcanjos ao Ode aos decaídos"

Esta escancarada lucidez
Lúcifer anjo, de unhas pintadas.
A multidão de ovelhas segue hermética atrás do sol
A mulher que mora aí ascende da cor malte
Do escarlate das unhas roídas pelos dentes de esmalte neutro

Mora no para-peito do prédio central, estalactite!
A água morna do mar, de manhã, invade o corpo todo.
Como o líquido espesso e salobro do homem te invade em contrações de ondas.
Ornam-te miçangas e areias e raios rebeldes de alguma explosão estelar.

O borrão da maquiagem, cinzas pagãs.
É fria, fúnebre, fecunda...
Inaugura a solidão de gatos e a alegria de carnes sem definições sexuais
Na tortura, até a fria carne se contraí.
E atraí instintos antropofágicos...
A lua come o dia que come seu anel de saturno.
No vazio do salão escuro...Nem mais os dedos!

A sua tez trás tons de arquétipos Boccicelli
Nemamiah!Anjo!
A terra que se avista do porto solidão
Dos olhos escondidos entre as melenas.
Por medo! Por moda! Por cegueira!
Um ensaio sobre o rosto exótico atrás da fumaça menta.

Lúcifer, Lúcia Mc.Cartney, lua de São Jorge!
Shy moon sobre o sertão.
Sobre ser tão coerente eles todos!
Sobre ser tão indecente o tornozelo!
Sobre ser tão irregular seus hemisférios!

Quase anjo, demônio, mulher, Discovery.
Quase nave, ou um canal de Tv.
Profana e sagrada como a vaca das divinas tetas fêmeas e lactentes.
Ouvindo discos over...
Presa na antena, no tempo.
No homem do tempo que inaugura dia bom na previsão.

Lúcifer de unhas roídas
Anjo e garras disformes, enterradas subcutâneamente no tecido que irá romper com o tempo.
Como o vestido que abriu de lado
Como o tempo que fechou contrariando a previsão.

Agarra o pescoço, estúpida!
Crava as unhas, por posse!
Arranca um pedaço, pelo preço!
Invade com língua ávida e ácida, pelo gosto da palavra!
Respira, restituindo o sempre!
Desprende do para peito do prédio... Decai!

Encerra o pacto imortal pra inaugurar a morte que vem da boca.

Velhinho

Hoje o dia está tão chuvoso que me deu vontade de escrever uma coisa líquida. Que escorresse por entre os meus dedo, meus medos e toda a tela. Algo meio incolor e inodoro. Refrescante, nos dias quentes. Arrepiante nos frios. Não, não, não vou falar da chuva, nem da sua composição e impacto ambiental. Vou falar da vida, só.Da minha, que agora escorre toda dos poros (apesar da chuva, está quente demais...). Queria falar que, quando eu era menor, eu comia sabonete. Tinha que ser Lux. Eu abria um todo dia, e ia tirando pedaços, enquanto enchia a boca de água do chuveiro e bebia, demoradamente e espumadamente. Eu tinha uns vizinhos muito bons. Dona Terezinha e filhos. Ela tinha 2 filhas biológicas e, que eu conheci, uns 5 ¿de coração¿ como dizia. Era benzedeira e sua casa vivia repleta de pessoas dos bairros vizinhos, que vinham encomendar ¿garrafadas¿, feitiços, quebrantes. Vivíamos na casa dela, eu e meus irmãos, adorávamos seu fogão à lenha no inverno, com brasa no chão pra esquentar os pés, seus torresmos, toucinho e chouriços que ficavam amarrados, defumando. Até do bolo com forte gosto de ovo. E só assistíamos Shazan se fosse na sua tv preto e branco. Tenho poucas lembranças de ela bêbada, brigando com os filhos. Apesar de saber que as cenas eram constantes. Quando eu perdi minha fita da Xuxa,numa festinha na casa da Cínthia,minha amiga mais cheia da grana na época. Fui a um vidente. Seu Pedrinho,morava n outro lado do rio. Ele disse que estava com a Flávia, minha amiga de anos de guerra, aí eu fui até lá pedir a fita, quase apanhei. Cheguei em casa e a fita estava caída num cantinho.Nunca contei pra ninguém que havia achado. Eu tinha 9 anos Meu avô paterno. Um espanhol de cabelos naturalmente negros foi e é uma das pessoas mais intrigantes pra mim. Era místico, cristão, vidente...E o que me parecia mais assustador: um homem daquele tamanho (1 e 90m),não tinha noção de localização. Nada estava posto longe o suficiente das suas vistas. Itararé? Ali por riba. Todos os lugares estavam ali, por riba dos morros de Ribeira. Nem tão longe que não pudesse ver. Foi ele também que me fez acreditar em lobisomem, mula-sem-cabeça e saci-pererê. Aliás, ele mesmo teve a crina do cavalo enrolada por um ¿neguinho destes¿. E viu lobisomem também, na porteira da fazenda. ¿Não precisa ter medo Maíra, quando ver um(como se eu muito quisesse), é só agir natural, eles não incomodam¿. Fiquei mais sossegada depois disto. Abriu um arco-íris no céu agora, neste momento. Você já pousou seus olhos daltônicos em um? Minhas duas avós juram que meus avôs bebiam, fumavam, comiam puta e davam porrada em mulher. Eu, minha mãe e irmãos não acreditamos. Quando chovia e acabava a energia elétrica, e isto sempre acontecia em Ribeira. Meu pai nos colocava na cama, e inventava músicas para nos distrairmos. Lembro de uma que ele colocou o meu padrinho Iberê, que é um pouco professor Pardal na história, ficou assim: ¿Meu rádio à pilha quebrou. Eu fui levar para o Iberê consertador. Mas o Iberê logo me falou: Não vai mais ter som, não vai mais ter som¿.Meu pai era genial. Minha irmã Priscila, mais velha que eu, ainda tem a pachorra de ter todos os brinquedos da infância. Pogobol, feijãozinho, bebezão. Os meus se auto destruíam em questão de segundos. Num natal, ganhamos um rádio super incrementando, com umas luzes coloridas e com nossos nomes gravados. O meu, vivia no ¿Iberê consertador¿, e viveu por longos anos, com ataduras, durex, chicletes, gambiarras, indo a todas as festinhas de aniversários de amigos e de bonecas. O rádio da minha irmã, coitado, enferrujou. (um risinho de soberba). Eu passei a infância inteira querendo o microfone da Xuxa. Aquele com cabelo laranja. Sabe, fruta de estação? Então, na minha cidade eram os bêbados. Cada um aparecia numa época. Landão, Santina, Mangueira...Épicos. Achava que eles moravam longe, longe, e que, viviam andando até chegar em Ribeira. Mais tarde descobri que moravam ali pelas redondezas, e que não permaneciam bêbados como eu achava. Às vezes trabalhavam, tinham casa. Landão e Mangueira andam sumidos, mas a Santina não, algumas vezes (acho que na estação certa), que eu vou pra Ribeira, eu a encontro pelas ruas, rimando a vida como poucos. Uma ótima poeta. Raciocínio rápido. Se tivesse conhecido o Paulo Leminski e o Raúl Seixas, quem sabe... Mais o que é mais assustador do que, os mitos bêbados que caem (?). São os bêbados que ficam velhos. Muito dos quais eu corri de medo a infância toda estão velhos , doentes e inofensivos. Tenho medo de passar por eles e derruba-los só com o olhar de curiosidade sobre o tempo. Faz tempo bom. O sol, timidamente, começa a invadir a sala. Eu também tinha medo dos mascatripas, ou mascarados. São meninos que, depois do Carnaval vestem se com roupas esfarrapadas, máscaras e paus. Saem correndo atrás das crianças, para assustar. Eu morria de medo. Mas já me vesti umas vezes.Depois, perdeu o encanto. No dia em que minha mãe foi nos contar que iriam se separar chamou minha irmã mais velha e eu. Já passava das 23hrs. Sabíamos que iria acontecer, mas ela foi tão sucinta e tão forte e tão suave que aquele clima nunca me saiu da memória. Atrelado aos fatos do momento ela foi contando e revisitando fatos da sua vida toda, sua história, a primeira geladeira que ela beijava,beijava assim que chegou na casa. O homem e o amor ao homem que ela ainda amava e a traiu. O amor ao homem e aos filhos dele, ou não. O amor ao homem ao qual ela disse se pudesse voltar o tempo, faria tudo igual. O amor ao homem que, anos depois ela o enterrou. Quando eu fiz 1 ano de vida, ganhei do meu avô materno, um Champanhe enorme. Eu tenho a foto, só não sei quem bebeu. Quando eu tinha 5 anos, fui com minha mãe,irmã, Vô e Vó maternos para Cascavel-PR. Na viagem, resolvemos fazer umas compras no Paraguai(eu era fashion). Estava com minha mãe atravessando a ponte quando derrepente, um barulho. O trânsito não parou. Minha mãe me jogou de lado e tentou me tirar dali. Impossúivel, a veia jornalística já pulsava. Um menino da minha idade, atropelado e jogado aos meus pés. Foi minha primeira visão mais radical de morte. Num finados, fui a missa, que era no cemitério. Vi a foto de um menino lindo,irmão da minha professora que havia morrido aos 17 anos,num acidente. Fiquei apaixonada. Ia,morbidamente todo o dia vê-lo. Sofri ,chorei, foi um caso um pouco complicado. A primeira vez que eu fumei maconha não deu barato.Nem a segunda.

Cinco de Novembro

Você que consegue romper as procelas.Que chega de repente no topo e para tudo, como um Deus que eu inventei por culpa da pós-modernidade e das luzes McDonalds.
Você que se apaixona sôfrego e dissoluto.Você que fica mudo quando eu falo Nada. Que tem raízes animal que te ponham em pé em meio à multidão e dilacera o meu vestido e constrange meus sentidos, perturba minha vista.
Você que insiste para que eu quebre meu pacto com a razão.Que tem uma certa razão nas suas propostas sonâmbulas e embriagadas.Você que chora e molha por um bem que te atormenta, que inventa palavras para os momentos.Você que não sabe o quanto me cabe no peito, o quanto de você mora ali por usucapião.
Você que tem gosto de bala de café tem fé na estrada e pé em Deus, que quer ser cavalheiro quando está com sono, que me deixa virar as costas e faz-se de mudo.Você que nulo deixou a última questão.Você que não consegue engolir todo o whisky, que leva no bolso o meu vício, mas não trás a cura.Você que segura minha mão gelada no labirinto para que eu não me perca.Que leva minhas mãos e a certeza.Protege minhas dúvidas atrás das costas e guarda meus segredos numa pasta.Você que não crê em destino e nem em graça, que como traça me rói os tecidos. Você que não comigo, mas com outra é rei.Você que eu aturei lamúrias e desacatos.Você homem, bicho do mato, você come, eu prato! Você que some quando as portas vão se fechar.Que consome a vida na segurança da minha previsibilidade.
Você que bate, fere, machuca.Que assopra e bota açúcar. Que mente, que sente, que segue e me manda por o cinto. Você por quem eu não sei o que sinto, nem o que eu acho.Você que esconde os nomes e as frases feitas, afoitas. Que diz que eu dou sorte e dou azar. Você que diz querer ficar quando está indo.Que olha sorrindo e finge de repente.Você que é homem e sempre dissolve na multidão.Que arranca gemidos alheios pra que eu ouça.Você que me faz frio no verão, que me faz saia e salto fino.Você que faz filhos com o seu grande amor, faz planos para eles comigo. Você que me é amigo, você que oscila em entediado e sem assunto.Você que aceita minha indiferença por orgulho, que quer morar no interior, cachorros, filhos e casa.Você que casa, eu que mudo.Você que fala acha chato, eu estranho.Você pondo panos quentes, eu queimando.Você dizendo que tem que ir. Eu deixando por não saber o que dizer.Você indo, rindo, parecendo feliz. Eu tomando whisky com guaraná na zona.Você indo, vindo com o novo. Eu vendo chuva na alameda Pamaris.Você indo, abrindo a porta do carro, eu correndo com pernas imaginárias, com pressa disfarçada no borrão da maquiagem.Você, sobre as rodas, eu ficando na estação.Você, mandando um telegrama de que no fundo eu não sou tão ruim, Eu fazendo poeminhas para acreditar.Você, garoto interrompido, cumprindo suas teses de macho, eu garota reprimida, machucando a pele do rosto.Você, moço...Eu maço de cigarros!Vem dançar comigo, não agüento mais dar passos tão perdidos!
06-11-2003
Sorocaba SP

O primeiro de cinco

Todo dia cinco nascia aparentemente em caos completo. Cabelo a lavar, unhas a cortar, pintar, cara pra passar, desamassar e vontadeainda enfiada na lata enferrujada da cozinha.
Todo dia amarelo, rimava com um nome curto que ela não proferia pra nãoparecer em vão.
Alguns dias cinco e amarelos passavam em vãos escorregadios das escadas que ao final, não davam em nada.
Algumas escadas às vezes traziam deuses criados em caixinhas em resposta após-modernidade e ao tempo.
De repente, no topo, parando tudo.Provando tudo, derrubando as procelas.
Alguns dias, como traça, te rói os tecidos.
11 Novembro de 2003

Sunday, November 27, 2005

Quase oração


Imagem:Vera Cymbron


Quando eu crescer, Deus meu! Não me deixe careca nem barrigudo. Se me deixar careca... Não me livre dos fios dos pensamentos ralos. Não me deixe ralo, raso, superficial. Não me deixe mal no retrato. Nem quebrando em sorrisos falso, ao lado de quem eu nem conheço os olhos. Não me deixe apático! Mas também não me deixe revoltoso só por exercício. Também não me deixe rico, nem meio pobre. Não me deixe vestindo-me de pobre para enriquecer depressa e nem preso ao medo de perder antes mesmo de conquistar. Quando eu crescer e ficar careca, afaste de mim a carência de estar sempre cercado. A carência de perder o status, o garbo e o colo para os filhos. Mas não me deixe menino, fazendo cenas e bicos, nem muito adulto, infartando de tudo que eu me fartei.
E se me deixar barrigudo... Que não seja do chopp dos happy-Hour com o pessoal do serviço, nem dos cacoetes do machismo. Que eu seja um barrigudo de não ser quadrado, e de certa e charmosa displicência. Que não seja de ter engolido o mundo, de não ter vomitado tudo o que era demais. Que seja uma barriga característica da anatomia humana e só! Quando eu crescer Deus meu, não me deixe tão alto de pretensão, nem de pressão arterial. Não me deixe acima das minhas possibilidades e nem dos aeroplanos.
Que eu não me eleve até aonde as pessoas não conseguem me alcançar. Mas também que eu não seja baixo demais. Feito planta rasteira, quase imperceptível. Que eu não seja baixo demais a ponto de ter que sair sempre de salto alto, ter que me pendurar nos outros e ter dores muscular. Mas Deus Meu, por favor, quando eu crescer, dê um jeito de me avisar que eu cresci, assim, só para eu entender sobre o tempo, a importância da passagem, entender o que é bagagem e o que de resto são bobagens que a gente insisti em carregar.

Saturday, November 26, 2005

Chorões mesmo sem lágrimas



Imagem: Roda de Samba de Heitor dos Prazeres


Eu até te ensinaria, caso você não fosse tão sentimental. A gente precisa abstrair uns sentimentos as vezes, chorar menos para poder acumular um tanto de mágoas. Mas você se esvazia de uma forma que te deixa fraco. Sem forças....sem água
Tem um rio guardado dentro de mim, e se eu não me cortar, e sangrar e doer muito...ele vai ficar por anos, me enchendo e, vez ou outra, vertendo em cima deste teclado estúpido em forma de literatura burra, dura ou piegas. Você esconde os panos, você faz planos e quer fugir.
Eu finjo muito bem mesmo, eu fujo o olhar, invento outros alvos. Mas não, eu não vou esvaziar o que há em mim para saudar o novo que me pegou tão distraída enquanto ouvia Noel. Alguém rodopiava em sorriso fácil. Meu sorriso falso de contrair os dedos e mexer os cabelos era um prenúncio. Aquela mais outra engasgada cerveja gelada eu pedia pra te prender por uns instantes, pra eu aprender que mãos entrelaçadas não é tão bonito, e o ritmo na caixa de fósforo eu queimei com os palitos. Mas eu não vou cortar os pulsos, não vou contar os minutos nem conter o rouquidão...os chorões nesta noite fria de verão, me ensinaram umas frases de efeito. Não vai rolar nada baixo cílio...lágrima nenhuma...eu entôo em coro com os descontes, estas frases por entre os dentes...Enquanto você prende o seu em m sorriso bonito qualquer. Depois você chora um rio. Se afoga, me envolve... por instantes afundo também. Os chorões trazem Cartola. Pego mais duas no bar...como naufrago...salvo pela ressaca.

Thursday, November 24, 2005

Eu estou por fora. Me disse agora o Belchior

Eu tenho medo de gente organizada, arquivada. Gente lista de supermercado, item por item.
Eu temo gente crescente, decrescente, sincronizada.
Eu temo mais a ordem lógica das coisas, do que o caos.
Tenho medo de gente gaveta, separada por etiquetas, embalada em plásticos.
Medo dos grampos vermelhos que vedam a entrada de corpos estranhos.
Tenho medo de gente normal, igual, comum. Medo dos corpos comuns.
Medo de quem não pega, não cheira, não morde.
Medo de quem tem medo de carne.
Medo de quem tem tantas ideologias. Simbologias. Idiossincrasias.Parágrafo, aspas e travessão.
Tenho medo de quem não atravessa a avenida sem ter motivo.
Medo de quem sabe o lado certo de ir.
Medo de quem sabe onde ficar.
Eu tenho medo de quem me pergunta demais.
Medo de quem me esquece demais.
Medo de quem finge por medo.
Medo de quem ri sem graça.
Medo de quem usa veneno contra traças, contra caspas, contra cócegas.
Temo quem não fala sozinho, quem usa mensagem subliminar.
Eu tenho medo de quem não tira sarro na minha cara e nem jorra privado a baixo a merda que sempre é o day-after.
Tenho medo de ser protegida.
Eu tenho medo das coisas simples da vida.
Medo de gostar das coisas simples e pegar na mão.
Tenho medo de amar e de doce de sagu. Mas não tenho medo de avião

Sunday, November 20, 2005

N.D.A - (Quase crônica - quase justificativa)



Publicado no PROVOCARE

"Não é suficiente ensinar ao homem uma especialidade. É essencial que ele tenha uma compreensão e um sentimento vivo em relação aos valores..(...)"Albert Eistein,1952, "New York Times"


Não me venham com panos quentes e não me apontem uma arma na cabeça. Esqueçam! Eu não votei nem pelo Sim, nem pelo Não, nem pelo Mais ou Menos. Também não negligenciei meu papel de cidadã...me justifiquei. Mas não justifiquei como realmente gostaria, apenas preenchi um papel com meus dados, confirmando que eu estava léguas do meu colégio eleitoral (aliás, meu colégio de verdade por bons 11 anos).
Na edição passada, uma criança com uma arminha de brinquedo soltava bolinhas de sabão, para , mais uma vez, justificar outro papel. O papel de imprensa, que presta serviços ao avisar ao cidadão que ele tinha obrigação no belo e ensolarado Domingo do dia 23. Entre embates e debates com o próprio povo do jornal, acabamos decidindo pela singela menina....inofensiva. Nenhuma apologia ao Sim – em coro aos artistas globais. Também nem ao Não! Contrários aos nossos colegas "fodões" da dita (cuja) "grande imprensa", não prestamos serviços para nenhum lado, Não daquele lado, não daquelas apenas duas opções, A La Mengele nos campos, decidindo o final fantástico de cada um, dependendo do lado apontado, neste caso, teclado.
N.D.A . Para mim, nenhuma das alternativas. E tem justificativa sim! Não aquela lá, do nominho no canhoto....Eu, quando criança, nunca tive, sequer, uma metralhadora de água da Estrela...nada. Mais uma vez eu vou culpar Papai por mais esta censura. Nem para nós meninas, (somos em três), tão pouco para o meu Macho irmão, foi concedido o porte de arminhas de brinquedo. Ele tinha justificativa também, claro. Para meu Pai, a familiarização com as armas nos deixariam mais propensos a não temê-las. Tem até fundamento, mais não tem muito esclarecimento na tese, talvez se ele tivesse vivido mais, poderia ter trabalhado melhor na conclusão.
Eu acho um charme quem sabe manusear uma arma, no meu fetichístico conceito faroéstico de virilidade, claro.
Considerando que tenho coordenação motora de uma criança que fugiu das séries primárias de formação, a noção tempo-espaço com 3 horas de atraso e força nos braços de uma levantadora de copos (americano, porque são mais leves), manusear uma arma requereria de mim, o dobro do esforço das pessoas normais. Mas também não chega a ser minha meta para 2006.
Enfim, falei, falei e não cheguei aonde queria, a tal da justificativa, já que eu não engoli muito aquela história de papelzinho.
Parece piada, me senti ridicularizada e subestimada quanto a minha capacidade intelectual, ou mesmo de discernimento. Jogar em mim a responsabilidade quanto a uma escolha tão idiota, entre um SIM, que parecia bacana, politicamente correto e engajado...mas que já existe e é lei, ou um Não, que, bizarrices às favas, não faz diferença alguma. Tem um puta comércio que enriquece, quem mais compra armas são os ilegais mesmo, o bandido é anos-luz mais armado que o Estado que nos protege, acidente com arma de fogo mata muito mesmo, assim como faca, pedaços de vidro, a merda do meu cigarro,porrada, Pit-Bull...E aí. No que altera o meu voto consciente e cidadão entre Não e Sim. Na minha modesta opinião, só uma coisa, agora os culpados pelos elevados índices de crimes com armas de fogo é culpa de alguém ai que votou Não e o Não ganhou. Eles te incitaram para dividir a culpa. Para mim, é o que há. Se não for para repartir a culpa de políticas sociais mal estruturadas, só pode ser para grifar naqueles livros didáticos de História Moderna e Contemporânea, "Mais um ato cívico, resultado de uma democracia forte e sustentável" .Pôr que, cá pra nós, incrível como neste país democracia é sinônimo de eleição, plebiscitos, referendos e impeachments...
Não consegui vislumbrar a mudança no meu país a partir do meu voto do Sim – que negava e do Não liberal, tão confuso quanto a explicação da importância do ato. A mudança, ao meu ver começa lá na educação, é lá na base, é lá no salário-incentivo aos professores, nos cursos de formação e capacitação aos docentes mais decentes, com conteúdo para que eles não durmam durante a apresentação cafona daqueles Power Point, lá nas crianças na escola e não nos faróis, nas roças, nos engenhos, nos motéis de beira de estrada. É lá na infra-estrutura desta família, na água encanada, na luz e, pelo amor de todos os narizes e anti-corpos, no esgoto. No abatimento de impostos para as empresas com projetos bacanas de responsabilidade social, com projetos sociais que não tenham caixa 2, com hospital, com maca e com vacina pra gente, não só pra gado, com médicos humanistas, com uma política de inclusão eficiente, com plataformas de acesso aos deficientes em lugares públicos, com conteúdos de informação em Braille, com incentivo a cultura, com valorização do Bumba, do Saci, do Xote, do Boto, da fabricação de lacticínios, de pinga curtida, de balas de banana, de panelas de barro e carrancas coloridas, com um concurso nacional da Literatura de Cordel, com atividades artísticas, educacionais, arroz e feijão, profissionalização e educação lá no morro, lá no asfalto, lá na beira do rio, lá no meio do sertão, no igarapé, na tenda, na Oca, na gruta, embaixo do viaduto... É isto, minha justificativa quanto a minha falta é que eu não acredito nesta novela "Pastelão" de cobrir a cabeça e deixar os pés de fora. Não é tirando as armas das mãos das criancinhas, como fazia meu Pai. É educando estas crianças, ensinando valores, história, física, música, esportes, para que ela, quando crescer, por mais que ache um "certo charme" certas coisas e tenha uns fetiches pra lá de piegas como eu, tenha discernimento quanto ao rumo que as coisas acabam por tomar. Para que ela possa Ter escolhas, mais amplas e mais contundentes, uma profissão, se quiser, Ter filhos, se quiser, possa trabalhar e ficar rica, ou, se quiser, possa ser jornalista...Ter sonhos, contas, Ter pátria, Ter direito, deveres e justificativas, claro! O problema desta luta não são as armas, mas o alvo!

Sunday, November 06, 2005

Domingus Tecum


(Foto:Paisagem urbana de Rose Elena Mazzer )

O Domingo está lindo – o astro rei invade a sala de estar... impávido, colosso. Amigos no Paraná e na Dinamarca. Saudades – a tradução do que verdadeiramente é a última flor do lácio.
Enquanto o copo – plácido, plástico, descartável – acumula restos de um líquido amarelado, quase redenção! Restos de um tipo de papel envolto a uns tipos de elementos químicos e tabaco – quase poluição! O mea-culpa da semana inteira. Que começou na Terça. Que alterou registro de nome de filho e ideais de vida inteira. E nenhum hierofante de esquina apareceu pra ler a minha sorte. Para me dizer que pode ser amor, ou dor, ou carência...paciência. Hoje é Domingo – O Sílvio Santos de cueca –na minha imaginação mambembe - pede audiência . O meu umbigo pede decência. O Zeca Baleiro pede passagem. Meu estômago – pede Ribeira. e o Lenine volta- um pouco mais de paciência!!!
O Domingo está indo – a movimentação do tráfego na Marginal Dom Aguirre tremula a coleção disforme de latas entreabertas, equilibristas entre a pilha de revistas da semana que passou e os recortes de jornais de ontem. Neles – os classificados não são os primeiros- são os que em desespero se anunciam, se trocam, permutam-se. A labuta do dia de folga e a foto que enrola o peixe envolto a matéria da construção dos piscinões. A vocação dos sermões é do dia de hoje.
O Domingo está rindo – Logo passa alguém feliz na televisão, que hoje eu não me permiti. Logo as casas, os templos de louvação se renderam em preces e murmúrios. O taciturno senhor dos castigos se rasgará em sorrisos ante as oferendas de fé e sessões de lordoses. A dose do cálice- para que calem-se – nunca é compreendida. E o Domingo é tomado pela retórica das oratórias decoradas do livrinho.
"Meu santinho – eu não sei o que significa unigênito – mas é meu jeito"
"Meu senhor – Homilia é o mesmo que humilha?
E a multidão de ovelhas seguem herméticas ...
E o Domingo segue depois do sol
Notas dominicais: Não há um boteco aberto num raio de 200 ms.

Saturday, November 05, 2005

Quase Editorial (quase romance)

Editorial de apresentação do PROVOCARE
Agosto-2005

Eu cresci entre os poetas malditos e os jornalistas maldosos. Entre as letras sinuosas, entre os Hemingways minuciosos. Entre as Zeldas loucas e as professoras que me pediam pontuação. Os Bukowiskis sacanas e os Taleses de grandes sacadas humanas. Entre o humor do Francis e o amor de Gabo, entre o cavalo que sorriu da Clarice e a Alice astuta de Wharoll. E a política de Gullar – singular/plural/Opinião – E a mítica de Caetano no seu Estrangeiro, no Estrangeiro de Camus. O balão do quase romance de Cony. Quase memória das amoras do vale de OVNIS de Hilda Hilst. E a embriagues exilada das noites dos malditos – benditos, bem-vindos... Todos!
A contestação ou a aquietação – que seja! Provocada, inspirada, restaurada – que seja! Pela arte, pela parte que mais te parte ou te constrói – que seja! É o recorte mais evidente no ser humano. Aquele que tange mais profundo, que faz aquele recorte necessário no cotidiano – para que ele valha caber numa canção do Chico. Para que suportemos fazer as nossas coisas. Visitar nosso caos. Contar nosso causo. Ler nosso Camus. Para que valha a pena. Eu acredito nisso – tanto que ao iniciar e inaugurar o editorial– exponho alguns laços da relação da interferência provocativa da arte, da cultura na minha vida. Assim – apresento o PROVOCARE – e faço uso das palavras de um dos grandes nomes do jornalismo no Brasil – Ulisses Capazzoli – para explicar o que quer dizer esta palavra:
"Na origem latina PROVOCARE, pode ser entendido literalmente como "fazer falar", equivalente a "fazer pensar". Ninguém fala criativamente sem pensar. Falar e pensar são ações indissociáveis – tanto quanto o tempo, no universo einsteiniano, não pode ser destacado do espaço. Falar-pensar e universo-tempo são, por isso, contínuos inseparáveis"(Ulisses Capazzoli)
Comprometido com a crítica social, com as questões artísticas, culturais, históricas e cotidianas – não necessariamente nesta ordem. Não apenas uma conquista do povo de Votorantin - um lugar onde a cultura caminha a passos largos - mas também de uma gama de artistas, jornalistas, intelectuais, formadores de opinião e público em geral carentes de publicações que discutam a sociedade, política, filosofia, arte e a cultura tanto local quanto num contexto mais abrangente.
O PROVOCARE nasce como espaço da discussão, da explanação despretensiosa, do dedo de prosa, da não burocratização editorial - e as favas os manuais de redação e estilo. As favas e as vaias da platéia que não crê em pré-estabelecidos, em pré -conceitos – as palmas e aos pés daqueles que ainda acreditam. Seja lá no que for, mas ainda conservam a grandeza daquilo que uns chamam de utopia, e que os responsáveis por este jornal preferem interpretar como esperança!
Falando em esperança – esta edição trás, além de artigos, resenhas e entrevistas – Histórias bem bacanas como a da Amanda e do Gelson, portadores de deficiência e duas figuras, cheios de talento e garra que se valeram da arte para encarar a vida com outras cores e sobre outras lentes. E se a arte é capaz de tanta mudança, de trazer a tona tanta esperança e possibilidade de uma vida melhor, porque então ela ainda não atinge todas as camadas da nossa sociedade? Questionamento este que nós fizemos e também reforçamos com artigos de especialistas e pedimos, para complementar, um parecer do cara responsável por tudo o que rola de arte e cultura em Votorantim – o Secretário de Cultura, Werinton Kermes, que mandou ver num artigo que a gente apresenta na íntegra. E, já que o assunto é FAZER PENSAR inclusão social pela arte, o PROVOCARE acompanhou todo o desenrolar de um projeto bem bacana, que movimentou a comunidade – seja pelas oficinas realizadas na escola, quanto pelas palestras e shows que selaram esta iniciativa onde o assunto foi o Hip-Hop e sua disseminação, mais latente, nas periferias. O projeto valeu um especial no jornal pelo seu contexto social, cultural e artístico, além, claro de trazer à tona a discussão de que o movimento nada tem a ver com a apologia a violência, muito pelo contrário, tudo sangue bom!
A arte - em suas diversas vertentes – foi explorada nesta edição de estréia. A data comemorativa ao dia do escritor – (25 de Julho) - foi resgatada no artigo do poeta gaúcho, tudo de bom, Fabrício Carpinejar e na homenagem a um grande escritor local, que aos trancos e barrancos faz da arte sua expressão mais simples e mais brilhante. Construtor de casas e de textos – Seu Paulo reconstrói uma Votorantim que ele ouve dos causos.
Quem entende a nossa cultura contextualizando suas diversas manifestações artísticas, vai se deleitar com a descoberta ou a confirmação do talento, inteligência e da cabeça bacana do nosso refém, digo, entrevistado. Prendemos o Cléber – do Trio Curupira num bate-papo pra lá de descontraído, sobre vários assuntos – não lineares, diga-se de passagem - com cara de papo de boteco mesmo!
No mais – ou sem mais no momento, a mim só resta dizer: Divirtam-se! Boa leitura!Tem muita coisa bacana, promoção, agenda, dicas, claro, e ainda a presença honrosa do elegante e galante "Tiozinho do Shopping" na nossa capa de estréia. Saravá!