Thursday, December 01, 2005

Velhinho

Hoje o dia está tão chuvoso que me deu vontade de escrever uma coisa líquida. Que escorresse por entre os meus dedo, meus medos e toda a tela. Algo meio incolor e inodoro. Refrescante, nos dias quentes. Arrepiante nos frios. Não, não, não vou falar da chuva, nem da sua composição e impacto ambiental. Vou falar da vida, só.Da minha, que agora escorre toda dos poros (apesar da chuva, está quente demais...). Queria falar que, quando eu era menor, eu comia sabonete. Tinha que ser Lux. Eu abria um todo dia, e ia tirando pedaços, enquanto enchia a boca de água do chuveiro e bebia, demoradamente e espumadamente. Eu tinha uns vizinhos muito bons. Dona Terezinha e filhos. Ela tinha 2 filhas biológicas e, que eu conheci, uns 5 ¿de coração¿ como dizia. Era benzedeira e sua casa vivia repleta de pessoas dos bairros vizinhos, que vinham encomendar ¿garrafadas¿, feitiços, quebrantes. Vivíamos na casa dela, eu e meus irmãos, adorávamos seu fogão à lenha no inverno, com brasa no chão pra esquentar os pés, seus torresmos, toucinho e chouriços que ficavam amarrados, defumando. Até do bolo com forte gosto de ovo. E só assistíamos Shazan se fosse na sua tv preto e branco. Tenho poucas lembranças de ela bêbada, brigando com os filhos. Apesar de saber que as cenas eram constantes. Quando eu perdi minha fita da Xuxa,numa festinha na casa da Cínthia,minha amiga mais cheia da grana na época. Fui a um vidente. Seu Pedrinho,morava n outro lado do rio. Ele disse que estava com a Flávia, minha amiga de anos de guerra, aí eu fui até lá pedir a fita, quase apanhei. Cheguei em casa e a fita estava caída num cantinho.Nunca contei pra ninguém que havia achado. Eu tinha 9 anos Meu avô paterno. Um espanhol de cabelos naturalmente negros foi e é uma das pessoas mais intrigantes pra mim. Era místico, cristão, vidente...E o que me parecia mais assustador: um homem daquele tamanho (1 e 90m),não tinha noção de localização. Nada estava posto longe o suficiente das suas vistas. Itararé? Ali por riba. Todos os lugares estavam ali, por riba dos morros de Ribeira. Nem tão longe que não pudesse ver. Foi ele também que me fez acreditar em lobisomem, mula-sem-cabeça e saci-pererê. Aliás, ele mesmo teve a crina do cavalo enrolada por um ¿neguinho destes¿. E viu lobisomem também, na porteira da fazenda. ¿Não precisa ter medo Maíra, quando ver um(como se eu muito quisesse), é só agir natural, eles não incomodam¿. Fiquei mais sossegada depois disto. Abriu um arco-íris no céu agora, neste momento. Você já pousou seus olhos daltônicos em um? Minhas duas avós juram que meus avôs bebiam, fumavam, comiam puta e davam porrada em mulher. Eu, minha mãe e irmãos não acreditamos. Quando chovia e acabava a energia elétrica, e isto sempre acontecia em Ribeira. Meu pai nos colocava na cama, e inventava músicas para nos distrairmos. Lembro de uma que ele colocou o meu padrinho Iberê, que é um pouco professor Pardal na história, ficou assim: ¿Meu rádio à pilha quebrou. Eu fui levar para o Iberê consertador. Mas o Iberê logo me falou: Não vai mais ter som, não vai mais ter som¿.Meu pai era genial. Minha irmã Priscila, mais velha que eu, ainda tem a pachorra de ter todos os brinquedos da infância. Pogobol, feijãozinho, bebezão. Os meus se auto destruíam em questão de segundos. Num natal, ganhamos um rádio super incrementando, com umas luzes coloridas e com nossos nomes gravados. O meu, vivia no ¿Iberê consertador¿, e viveu por longos anos, com ataduras, durex, chicletes, gambiarras, indo a todas as festinhas de aniversários de amigos e de bonecas. O rádio da minha irmã, coitado, enferrujou. (um risinho de soberba). Eu passei a infância inteira querendo o microfone da Xuxa. Aquele com cabelo laranja. Sabe, fruta de estação? Então, na minha cidade eram os bêbados. Cada um aparecia numa época. Landão, Santina, Mangueira...Épicos. Achava que eles moravam longe, longe, e que, viviam andando até chegar em Ribeira. Mais tarde descobri que moravam ali pelas redondezas, e que não permaneciam bêbados como eu achava. Às vezes trabalhavam, tinham casa. Landão e Mangueira andam sumidos, mas a Santina não, algumas vezes (acho que na estação certa), que eu vou pra Ribeira, eu a encontro pelas ruas, rimando a vida como poucos. Uma ótima poeta. Raciocínio rápido. Se tivesse conhecido o Paulo Leminski e o Raúl Seixas, quem sabe... Mais o que é mais assustador do que, os mitos bêbados que caem (?). São os bêbados que ficam velhos. Muito dos quais eu corri de medo a infância toda estão velhos , doentes e inofensivos. Tenho medo de passar por eles e derruba-los só com o olhar de curiosidade sobre o tempo. Faz tempo bom. O sol, timidamente, começa a invadir a sala. Eu também tinha medo dos mascatripas, ou mascarados. São meninos que, depois do Carnaval vestem se com roupas esfarrapadas, máscaras e paus. Saem correndo atrás das crianças, para assustar. Eu morria de medo. Mas já me vesti umas vezes.Depois, perdeu o encanto. No dia em que minha mãe foi nos contar que iriam se separar chamou minha irmã mais velha e eu. Já passava das 23hrs. Sabíamos que iria acontecer, mas ela foi tão sucinta e tão forte e tão suave que aquele clima nunca me saiu da memória. Atrelado aos fatos do momento ela foi contando e revisitando fatos da sua vida toda, sua história, a primeira geladeira que ela beijava,beijava assim que chegou na casa. O homem e o amor ao homem que ela ainda amava e a traiu. O amor ao homem e aos filhos dele, ou não. O amor ao homem ao qual ela disse se pudesse voltar o tempo, faria tudo igual. O amor ao homem que, anos depois ela o enterrou. Quando eu fiz 1 ano de vida, ganhei do meu avô materno, um Champanhe enorme. Eu tenho a foto, só não sei quem bebeu. Quando eu tinha 5 anos, fui com minha mãe,irmã, Vô e Vó maternos para Cascavel-PR. Na viagem, resolvemos fazer umas compras no Paraguai(eu era fashion). Estava com minha mãe atravessando a ponte quando derrepente, um barulho. O trânsito não parou. Minha mãe me jogou de lado e tentou me tirar dali. Impossúivel, a veia jornalística já pulsava. Um menino da minha idade, atropelado e jogado aos meus pés. Foi minha primeira visão mais radical de morte. Num finados, fui a missa, que era no cemitério. Vi a foto de um menino lindo,irmão da minha professora que havia morrido aos 17 anos,num acidente. Fiquei apaixonada. Ia,morbidamente todo o dia vê-lo. Sofri ,chorei, foi um caso um pouco complicado. A primeira vez que eu fumei maconha não deu barato.Nem a segunda.

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