Thursday, December 01, 2005

"todasascoisasmofadas" (Megalópole + Euclidifobismo)




Casas y dibujo de Alba - 2003 de Javier Saavedra

Megalópole


Eu faço poeminhas machucados, eu tento manchar sua índole até que você se admita fraco, fumante e, por uns instantes, perdedor.
Todas as crônicas que eu garimpei nas memórias altivas e jurássicas das páginas de Web,eu lia você.

Cada centímetro de palavra escrita, cada linha mal posta tinha que te contar um segredo que eu, há tempos, sucumbo á carnes frias.

Você lia e arquivava as páginas com a temperatura do dia lá fora, cinza, que varria São Paulo.

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Euclidifobismo

Eu que xingo sua mãe amada,
sua pátria toda
Sua parte baixa
Eu que risco seu arroz queimado
seu cd do Otto
seu anti-horário

Eu que perco seu etinerário,
sem mandar as flores e o cheque das crianças
Eu que rôo seu tecido branco,
a tinta do seu santo e seu esmalte de unha
Que eu brinco o dia da serpente, eu que escondo os dentes por indiferença.

E há que a crença no bem da salvação,
chegue no sertão
do seu amor falido
No seu agreste seco,
mundo cão, da inovação high tech do arelha do seu brinco.

Eu finjo

E há que a crença no escorpião
do seu afro-descendente,
a lua no sertão, e as estrelas cadentes
no exotérico das letras que eu rolei no colchão
e os dados..ao chão, e os dedos!

Medo vc ser tão
Medo de vc ser
Medo de tão, então
Medo de vc

Medo de vc sertão...árido!

2003

"Confraria dos arcanjos ao Ode aos decaídos"

Esta escancarada lucidez
Lúcifer anjo, de unhas pintadas.
A multidão de ovelhas segue hermética atrás do sol
A mulher que mora aí ascende da cor malte
Do escarlate das unhas roídas pelos dentes de esmalte neutro

Mora no para-peito do prédio central, estalactite!
A água morna do mar, de manhã, invade o corpo todo.
Como o líquido espesso e salobro do homem te invade em contrações de ondas.
Ornam-te miçangas e areias e raios rebeldes de alguma explosão estelar.

O borrão da maquiagem, cinzas pagãs.
É fria, fúnebre, fecunda...
Inaugura a solidão de gatos e a alegria de carnes sem definições sexuais
Na tortura, até a fria carne se contraí.
E atraí instintos antropofágicos...
A lua come o dia que come seu anel de saturno.
No vazio do salão escuro...Nem mais os dedos!

A sua tez trás tons de arquétipos Boccicelli
Nemamiah!Anjo!
A terra que se avista do porto solidão
Dos olhos escondidos entre as melenas.
Por medo! Por moda! Por cegueira!
Um ensaio sobre o rosto exótico atrás da fumaça menta.

Lúcifer, Lúcia Mc.Cartney, lua de São Jorge!
Shy moon sobre o sertão.
Sobre ser tão coerente eles todos!
Sobre ser tão indecente o tornozelo!
Sobre ser tão irregular seus hemisférios!

Quase anjo, demônio, mulher, Discovery.
Quase nave, ou um canal de Tv.
Profana e sagrada como a vaca das divinas tetas fêmeas e lactentes.
Ouvindo discos over...
Presa na antena, no tempo.
No homem do tempo que inaugura dia bom na previsão.

Lúcifer de unhas roídas
Anjo e garras disformes, enterradas subcutâneamente no tecido que irá romper com o tempo.
Como o vestido que abriu de lado
Como o tempo que fechou contrariando a previsão.

Agarra o pescoço, estúpida!
Crava as unhas, por posse!
Arranca um pedaço, pelo preço!
Invade com língua ávida e ácida, pelo gosto da palavra!
Respira, restituindo o sempre!
Desprende do para peito do prédio... Decai!

Encerra o pacto imortal pra inaugurar a morte que vem da boca.

Velhinho

Hoje o dia está tão chuvoso que me deu vontade de escrever uma coisa líquida. Que escorresse por entre os meus dedo, meus medos e toda a tela. Algo meio incolor e inodoro. Refrescante, nos dias quentes. Arrepiante nos frios. Não, não, não vou falar da chuva, nem da sua composição e impacto ambiental. Vou falar da vida, só.Da minha, que agora escorre toda dos poros (apesar da chuva, está quente demais...). Queria falar que, quando eu era menor, eu comia sabonete. Tinha que ser Lux. Eu abria um todo dia, e ia tirando pedaços, enquanto enchia a boca de água do chuveiro e bebia, demoradamente e espumadamente. Eu tinha uns vizinhos muito bons. Dona Terezinha e filhos. Ela tinha 2 filhas biológicas e, que eu conheci, uns 5 ¿de coração¿ como dizia. Era benzedeira e sua casa vivia repleta de pessoas dos bairros vizinhos, que vinham encomendar ¿garrafadas¿, feitiços, quebrantes. Vivíamos na casa dela, eu e meus irmãos, adorávamos seu fogão à lenha no inverno, com brasa no chão pra esquentar os pés, seus torresmos, toucinho e chouriços que ficavam amarrados, defumando. Até do bolo com forte gosto de ovo. E só assistíamos Shazan se fosse na sua tv preto e branco. Tenho poucas lembranças de ela bêbada, brigando com os filhos. Apesar de saber que as cenas eram constantes. Quando eu perdi minha fita da Xuxa,numa festinha na casa da Cínthia,minha amiga mais cheia da grana na época. Fui a um vidente. Seu Pedrinho,morava n outro lado do rio. Ele disse que estava com a Flávia, minha amiga de anos de guerra, aí eu fui até lá pedir a fita, quase apanhei. Cheguei em casa e a fita estava caída num cantinho.Nunca contei pra ninguém que havia achado. Eu tinha 9 anos Meu avô paterno. Um espanhol de cabelos naturalmente negros foi e é uma das pessoas mais intrigantes pra mim. Era místico, cristão, vidente...E o que me parecia mais assustador: um homem daquele tamanho (1 e 90m),não tinha noção de localização. Nada estava posto longe o suficiente das suas vistas. Itararé? Ali por riba. Todos os lugares estavam ali, por riba dos morros de Ribeira. Nem tão longe que não pudesse ver. Foi ele também que me fez acreditar em lobisomem, mula-sem-cabeça e saci-pererê. Aliás, ele mesmo teve a crina do cavalo enrolada por um ¿neguinho destes¿. E viu lobisomem também, na porteira da fazenda. ¿Não precisa ter medo Maíra, quando ver um(como se eu muito quisesse), é só agir natural, eles não incomodam¿. Fiquei mais sossegada depois disto. Abriu um arco-íris no céu agora, neste momento. Você já pousou seus olhos daltônicos em um? Minhas duas avós juram que meus avôs bebiam, fumavam, comiam puta e davam porrada em mulher. Eu, minha mãe e irmãos não acreditamos. Quando chovia e acabava a energia elétrica, e isto sempre acontecia em Ribeira. Meu pai nos colocava na cama, e inventava músicas para nos distrairmos. Lembro de uma que ele colocou o meu padrinho Iberê, que é um pouco professor Pardal na história, ficou assim: ¿Meu rádio à pilha quebrou. Eu fui levar para o Iberê consertador. Mas o Iberê logo me falou: Não vai mais ter som, não vai mais ter som¿.Meu pai era genial. Minha irmã Priscila, mais velha que eu, ainda tem a pachorra de ter todos os brinquedos da infância. Pogobol, feijãozinho, bebezão. Os meus se auto destruíam em questão de segundos. Num natal, ganhamos um rádio super incrementando, com umas luzes coloridas e com nossos nomes gravados. O meu, vivia no ¿Iberê consertador¿, e viveu por longos anos, com ataduras, durex, chicletes, gambiarras, indo a todas as festinhas de aniversários de amigos e de bonecas. O rádio da minha irmã, coitado, enferrujou. (um risinho de soberba). Eu passei a infância inteira querendo o microfone da Xuxa. Aquele com cabelo laranja. Sabe, fruta de estação? Então, na minha cidade eram os bêbados. Cada um aparecia numa época. Landão, Santina, Mangueira...Épicos. Achava que eles moravam longe, longe, e que, viviam andando até chegar em Ribeira. Mais tarde descobri que moravam ali pelas redondezas, e que não permaneciam bêbados como eu achava. Às vezes trabalhavam, tinham casa. Landão e Mangueira andam sumidos, mas a Santina não, algumas vezes (acho que na estação certa), que eu vou pra Ribeira, eu a encontro pelas ruas, rimando a vida como poucos. Uma ótima poeta. Raciocínio rápido. Se tivesse conhecido o Paulo Leminski e o Raúl Seixas, quem sabe... Mais o que é mais assustador do que, os mitos bêbados que caem (?). São os bêbados que ficam velhos. Muito dos quais eu corri de medo a infância toda estão velhos , doentes e inofensivos. Tenho medo de passar por eles e derruba-los só com o olhar de curiosidade sobre o tempo. Faz tempo bom. O sol, timidamente, começa a invadir a sala. Eu também tinha medo dos mascatripas, ou mascarados. São meninos que, depois do Carnaval vestem se com roupas esfarrapadas, máscaras e paus. Saem correndo atrás das crianças, para assustar. Eu morria de medo. Mas já me vesti umas vezes.Depois, perdeu o encanto. No dia em que minha mãe foi nos contar que iriam se separar chamou minha irmã mais velha e eu. Já passava das 23hrs. Sabíamos que iria acontecer, mas ela foi tão sucinta e tão forte e tão suave que aquele clima nunca me saiu da memória. Atrelado aos fatos do momento ela foi contando e revisitando fatos da sua vida toda, sua história, a primeira geladeira que ela beijava,beijava assim que chegou na casa. O homem e o amor ao homem que ela ainda amava e a traiu. O amor ao homem e aos filhos dele, ou não. O amor ao homem ao qual ela disse se pudesse voltar o tempo, faria tudo igual. O amor ao homem que, anos depois ela o enterrou. Quando eu fiz 1 ano de vida, ganhei do meu avô materno, um Champanhe enorme. Eu tenho a foto, só não sei quem bebeu. Quando eu tinha 5 anos, fui com minha mãe,irmã, Vô e Vó maternos para Cascavel-PR. Na viagem, resolvemos fazer umas compras no Paraguai(eu era fashion). Estava com minha mãe atravessando a ponte quando derrepente, um barulho. O trânsito não parou. Minha mãe me jogou de lado e tentou me tirar dali. Impossúivel, a veia jornalística já pulsava. Um menino da minha idade, atropelado e jogado aos meus pés. Foi minha primeira visão mais radical de morte. Num finados, fui a missa, que era no cemitério. Vi a foto de um menino lindo,irmão da minha professora que havia morrido aos 17 anos,num acidente. Fiquei apaixonada. Ia,morbidamente todo o dia vê-lo. Sofri ,chorei, foi um caso um pouco complicado. A primeira vez que eu fumei maconha não deu barato.Nem a segunda.

Cinco de Novembro

Você que consegue romper as procelas.Que chega de repente no topo e para tudo, como um Deus que eu inventei por culpa da pós-modernidade e das luzes McDonalds.
Você que se apaixona sôfrego e dissoluto.Você que fica mudo quando eu falo Nada. Que tem raízes animal que te ponham em pé em meio à multidão e dilacera o meu vestido e constrange meus sentidos, perturba minha vista.
Você que insiste para que eu quebre meu pacto com a razão.Que tem uma certa razão nas suas propostas sonâmbulas e embriagadas.Você que chora e molha por um bem que te atormenta, que inventa palavras para os momentos.Você que não sabe o quanto me cabe no peito, o quanto de você mora ali por usucapião.
Você que tem gosto de bala de café tem fé na estrada e pé em Deus, que quer ser cavalheiro quando está com sono, que me deixa virar as costas e faz-se de mudo.Você que nulo deixou a última questão.Você que não consegue engolir todo o whisky, que leva no bolso o meu vício, mas não trás a cura.Você que segura minha mão gelada no labirinto para que eu não me perca.Que leva minhas mãos e a certeza.Protege minhas dúvidas atrás das costas e guarda meus segredos numa pasta.Você que não crê em destino e nem em graça, que como traça me rói os tecidos. Você que não comigo, mas com outra é rei.Você que eu aturei lamúrias e desacatos.Você homem, bicho do mato, você come, eu prato! Você que some quando as portas vão se fechar.Que consome a vida na segurança da minha previsibilidade.
Você que bate, fere, machuca.Que assopra e bota açúcar. Que mente, que sente, que segue e me manda por o cinto. Você por quem eu não sei o que sinto, nem o que eu acho.Você que esconde os nomes e as frases feitas, afoitas. Que diz que eu dou sorte e dou azar. Você que diz querer ficar quando está indo.Que olha sorrindo e finge de repente.Você que é homem e sempre dissolve na multidão.Que arranca gemidos alheios pra que eu ouça.Você que me faz frio no verão, que me faz saia e salto fino.Você que faz filhos com o seu grande amor, faz planos para eles comigo. Você que me é amigo, você que oscila em entediado e sem assunto.Você que aceita minha indiferença por orgulho, que quer morar no interior, cachorros, filhos e casa.Você que casa, eu que mudo.Você que fala acha chato, eu estranho.Você pondo panos quentes, eu queimando.Você dizendo que tem que ir. Eu deixando por não saber o que dizer.Você indo, rindo, parecendo feliz. Eu tomando whisky com guaraná na zona.Você indo, vindo com o novo. Eu vendo chuva na alameda Pamaris.Você indo, abrindo a porta do carro, eu correndo com pernas imaginárias, com pressa disfarçada no borrão da maquiagem.Você, sobre as rodas, eu ficando na estação.Você, mandando um telegrama de que no fundo eu não sou tão ruim, Eu fazendo poeminhas para acreditar.Você, garoto interrompido, cumprindo suas teses de macho, eu garota reprimida, machucando a pele do rosto.Você, moço...Eu maço de cigarros!Vem dançar comigo, não agüento mais dar passos tão perdidos!
06-11-2003
Sorocaba SP

O primeiro de cinco

Todo dia cinco nascia aparentemente em caos completo. Cabelo a lavar, unhas a cortar, pintar, cara pra passar, desamassar e vontadeainda enfiada na lata enferrujada da cozinha.
Todo dia amarelo, rimava com um nome curto que ela não proferia pra nãoparecer em vão.
Alguns dias cinco e amarelos passavam em vãos escorregadios das escadas que ao final, não davam em nada.
Algumas escadas às vezes traziam deuses criados em caixinhas em resposta após-modernidade e ao tempo.
De repente, no topo, parando tudo.Provando tudo, derrubando as procelas.
Alguns dias, como traça, te rói os tecidos.
11 Novembro de 2003